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domingo, 25 de abril de 2021

Klara e o Sol

 

Candura dura como o metal de que é feita pode ser a primeira, segunda e, principalmente a última impressão que nos deixa o mais recente livro de Kazuo Ishiguro. A candura de Ishiguro tem muito em comum com a de Steinbeck. São estilos de escrita totalmente diferentes, mas o fio condutor, a glia que une as personagens, as histórias pequenas que deixam ver a grande, maior que o livro, maior que a vida, a brutalidade incomensurável ternamente descrita, sem floreados, sem adjetivos, só factos pontiagudos, aguçados, dilacerantes, docemente colocados um a seguir ao outro, como se só pudesse ser assim, vislumbrando-se alternativas possíveis e inviáveis, como numa enxurrada que vai por onde iria sempre, mesmo que pudesse ir por outo lado.  

Não é uma candura subjetiva, humana, pequena, individual. Praticável. É a candura subjacente à humanidade, ao Universo, intemporal, amoral, avassaladora.

Não vou contar o livro, refiro só o que está na contracapa, que é público e notório. Klara é a protagonista narradora, uma Amiga Artificial (AA), que espera numa loja para ser comprada, de modo a conseguir concretizar o objetivo da sua criação.

Kazuo é japonês e inglês, em simultâneo. Nasceu no japão, é de substrato japonês. Foi para Inglaterra aos cinco anos, cresceu inglês. Nasceu numa ilha a Oriente, fez-se noutra ilha, a Ocidente. A escrita de Ishiguro tem a depuração, a essência, o sentido de dever japoneses, num cenário ocidental. Deixa quase tudo à imaginação do leitor, o que poderá ser a caraterística mais estrutural dos grandes clássicos. Cada um, em cada tempo e lugar, preenche a história com a sua história, com o seu conhecimento, com a sua experiência, fazendo de cada leitura um exemplar único do livro, que se perpetua infinitamente. Este vencedor do prémio Nobel da Literatura, em 2017, faz isso magistralmente. Tece uma teia aberta, dá a estrutura e o cenário, traça os contornos das personagens e deixa-nos o encargo de construir a narrativa que será a nossa, com a nossa substancia, terrores e anseios.

A história é do futuro, mas pouco.

Vale a pena, para todos, mas principalmente para quem segue o tema da Inteligência Artificial, aproveitar esta oportunidade para absorver o que a arte, em geral, e a literatura, em particular, fazem melhor que qualquer ciência: a criação de hipóteses que nos permitem visualizar, intuir, saber o que foi, é e será.

“O sol tem sempre forma de nos alcançar”. 


sábado, 27 de março de 2021

O miolo da noz


Os bons livros de ficção contêm em si sínteses extraordinárias, difíceis de encontrar noutros recipientes, com a exceção, normalmente menos bela, dos provérbios populares. 

Deparei-me agora com uma pequena pilha de livros que foram saindo das prateleiras por alguma razão e foram ficando empilhados numa desarrumada arrumação durante muito tempo. Peguei neles e ia distribuí-los pelas respetivas secções a que pertencem, seguindo o critério relativamente vago e muito flexível das minhas estantes.

A questão é que quando isso acontece, isto é, quando pego em livros que li há muito tempo, com a intenção de os transportar de um sítio para outro, dificilmente resisto à tentação de os abrir ao acaso, passando os olhos por alguns parágrafos. O que se lhe segue é ser invadida pelo espanto, encher-me de um “como é que é possível pensar/escrever/sintetizar tão bem?”, enquanto me encosto ou sento onde estiver, esquecida do que ia fazer.

Acabou de acontecer, com a agravante de que havia uma página com um canto dobrado, que me propus reconduzir ao estado direito, enquanto pensava se seria um esquecimento de marcação dum tempo em que os marcadores oficiais eram raros, ou se estaria a assinalar algo notável.

Fiquei imediatamente esclarecida ao encontrar o seguinte: 

"Não posso resumir em meia dúzia de frases o que levou séculos a acontecer. No entanto, como o miolo de uma noz e a semente de um fruto, exprimem o esforço de toda a árvore, a essência da vida, talvez consiga… Pensa nisto: mandei as minhas três filhas para muito longe do nosso país porque previ a concatenação de acontecimentos que redundariam em catástrofe para o nosso povo. Desejava que vocês sobrevivessem.
- Que acontecimentos?
Madame Liang pôs o cigarro no cinzeiro, para poder contar pelos dedos. Começou pelo pequenino da mão esquerda e foi até ao polegar:”.

Em Pearl S. Buck, As Três Filhas da Senhora Liang, Colecção Dois Mundos, Edição «Livros do Brasil» Lisboa, Rua dos Caetanos 22,1969, p.63. Diz também “Venda interdita nos Estados Unidos do Brasil”.


quinta-feira, 25 de março de 2021

Leitura de pensamentos – novo avanço tecnológico

Todos os dias, literalmente todos os dias, eventualmente várias vezes, cai mais um bastião daquilo que mantinha o ser humano único, autónomo, no controlo de si próprio e da realidade que o rodeia, excluindo naturalmente catástrofes ou outros acontecimentos imprevisíveis e intrinsecamente incontroláveis.

Um estudo realizado na Queen Mary University de Londes, publicado no Plos One, em 3 de fevereiro de 2021, divulga o trabalho de cientistas que propõem uma nova maneira de detetar emoções através de “wireless signals”, mais concretamente ondas de rádio.

É muito útil, porque permite identificar emoções lendo diretamente os pensamentos, o que serve para vários fins de que se destacam a deteção de discrepâncias entre o que se diz e o que se pensa.

Em 1949, foi publicado Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell, que já continha o essencial sobre o assunto de um ponto de vista macro e político. Não há muito a acrescentar. A aplicação do conceito aos vários contextos em que o ser ainda humano se move, social, familiar, religioso, laboral, judicial, e todos os outros em que possamos pensar, é por si só a evidência do que está em causa. Quando à pergunta “Achas que esta roupa me fica bem?”, seja dada a simples e educada resposta esperada “Fica ótima.”, várias crises se perspetivam oriundas da leitura do pensamento que se conteve. Se as perguntas forem feitas em contexto judicial, o problema pode ser mais grave ou, pelo menos de consequências diferentes. No campo religioso, dado que Deus já possui essa faculdade, as questões ficam circunscritas ao terreno. Noutros campos, outras consequências ocorrerão.

A comunicação direta entre cérebros, no que poderá ser denominado Internet of Brains (IoT), já causava perplexidade bastante, como pode ser lido aqui, mas parecia implicar ainda algum controlo sobre o pensamento que se transmitia.

Neste artigo do The Machine, podem ler-se outras aplicações ou variações nesta temática, nomeadamente no que diz respeito aos Brain Computer Interfaces (BCI), que podem ser externos sob a forma de uma espécie de capacetes e que permitem coisas tão fúteis como corridas de drones diretamente comandados pelo pensamento, ou tão extraordinárias como a possibilidade de alguém privado da fala poder simplesmente pensar nas palavras que quereria dizer, sendo estas proferidas por um dispositivo criado para o efeito.

Estes BCI também podem ser internos, sob a forma de implantes no cérebro, coisa que Elon Musk, na Neuralink, uma das suas várias bilionárias empresas está a desenvolver, com o objetivo de possibilitar que o pensamento humano possa ser aumentado e minimamente competitivo com a inteligência artificial. O que, julga-se, será acessível a quem o possa pagar.

Enfim, tudo isto existe, tudo isto não sei se é triste, e tudo isto aparenta ser fado. Vamos ver no que dá, quer queiramos, quer não.    

domingo, 27 de dezembro de 2020

O que escreveríamos se escrevêssemos?

Escrever é procurar descobrir o que escreveríamos se escrevêssemos.

Esta frase maravilhosa é de Marguerite Duras.

Exprime exatamente o que sinto ao escrever. Os grandes escritores, como Duras, são assim. Exprimem exatamente coisas.

A escrita, além de não ser evitável, consiste numa curiosidade. Precisamos de ver como sai aquilo que somos forçados a expressar e, por essa curiosidade, escreve-se para ver o que seria se fosse. Quando já é, pouco interessa.

A frase de Marguerite surge citada por Irene Vallejo no Prólogo do seu novo livro, onde explica sobre o que escreveu, porque e como o fez, e desabafa a sua luta, parte da eterna luta com a página em branco, a luta de fazer do material história, de ficção ou não, pouco importa.  

O livro de Irene tem o título original “El infinito en un junco. La invención de los libros en el mundo antíguo”, traduzido para português como “O infinito num junco. A invenção do livro na Antiguidade e o nascer da sede de leitura”, título mais explicativo talvez para o leitor português não ter dúvidas sobre ao que vai, logo desde a capa. É uma edição da Bertrand de outubro de 2020, com reimpressão em dezembro de 2020. Dele diz Mário Vargas Llosa “Uma obra-prima”, por isso para quê acrescentar o que quer que seja. É ler-se.

A capa da Bertrand tem uma sobrecapa de metade do tamanho onde, além da apreciação de Llosa, são expressas outras apreciações muito importantes de pessoas e jornais e a informação de que é um “Fenómeno de vendas em Espanha – O livro mais lido do confinamento!”, com ponto de exclamação.

Quanto às vendas, nada a apontar, simplesmente a acrescentar que os factos – edição e reimpressão em dois meses – indicam que Portugal repetirá o fenómeno, com grande benefício dos leitores.  

Quanto à frase exclamativa, sugere-me uma interrogativa: Como é que a Bertrand sabe? Comprar não é ler. Terá sido feito um inquérito aos compradores, e aos felizes contemplados com o presente, sobre se o tinham lido? Terá sido o Facebook (proprietário do Instagram, do Whatsapp e etc) que naturalmente tudo sabe e isto também, já que as pessoas postam, mostram, comentam, gostam, falam. Terá sido a assistente pessoal do Google ou de qualquer outro, o Zoom ou outra plataforma de comunicação online? Terão sido todos juntos, extraindo a informação da imensidão da big data, usando potentíssimos sistemas de inteligência artificial que, se não sabem, inferem? Ou terá sido simplesmente uma liberdade criativa da editora?

Irene escreveu procurando descobrir o que escreveria se escrevesse. Saiu, como diz Alberto Manguel “Uma homenagem ao livro, de uma leitora apaixonada”.

Os livros, os bons livros, garantem o infinito em cada lugar.

sábado, 12 de dezembro de 2020

Big Tech and AI research - big troubles?

"The trouble is, there aren’t many alternative venues in AI that can fund accountability-focused research. Because of the massive computational costs associated with building out AI models, much of the major work in the field gets concentrated in the hands of a small number of companies and universities that can afford it.".
Nicolás Rivero, in Quartz, here .

terça-feira, 28 de julho de 2020

A sabedoria e o cone da ignorância



A vontade de emitir opiniões tem-me vindo a diminuir. Atualmente tende para o zero.

O momento próprio para dar opiniões é a adolescência, altura em que somos suficientemente ignorantes para as ter em abundância e sem grandes reticências e sabemos exatamente para onde mudar o mundo, o que é um descanso.

Um pouco mais tarde, em jovens, já começamos a ter algumas dúvidas, mas a pujança intelectual e física, o impulso imparável da energia que acumulamos, leva-nos a desconsiderá-las e a avançar para concretizar ideias novas e de grande fôlego. 

Novas, na medida em que é possível ter ideias novas, que é quase nenhuma. Desde as sociedades mais antigas, passando por Roma e pela Grécia Clássica, sábios de proveniências várias, religiosos e leigos, afirmam com propriedade que já tudo foi dito e feito sobre tudo. O que significa que, normalmente, uma ideia nova é nova para quem a tem, por desconhecimento de que já havia sido tida. O que não tira mérito nenhum, antes pelo contrário, já que ter ideias excelentes por si próprio, idênticas às que alguém brilhante já teve algures no tempo, é maravilhoso.

Mais tarde, é costume enveredarmos por uma profissão ou área e especializarmo-nos. Não tem de ser necessariamente especialização intelectual ou científica, pode ser na agricultura, na indústria, nos serviços. Pode, também, ser na própria opinião, seja em humanidades, com recurso a muita cultura geral e estudo específico de alguma matéria, seja em ciências naturais, engenharia ou outras. Pode, numa derivação, ser no jornalismo, que recolhe e trabalha factos e opiniões. Nessa especialização, ficamos reféns do afunilamento a que nos sujeitamos que nos aporta algum saber e a consequente prudência ao enunciá-lo, pela consciência de que qualquer afirmação contém em si a necessidade de colocar balizas, reservas e exceções. 

Quanto ao resto mantemo-nos essencialmente ignorantes, numa espécie de adolescência perpétua, que nos permite ter opiniões descontraídas sobre quase tudo. A maioria de nós sem qualquer consciência disso, com a enorme vantagem da satisfação de se dizer o que se pensa, como se isso fosse em si coisa boa. Pode ser bom quando a opinião é escrita e quem a escreve pensa bem e sabe usar a pena, ou quando é verbal e quem a diz pensa bem e sabe usar a palavra. Em ambos os casos tudo assenta muito na qualidade da retórica. Quando a opinião é de um político é só isso, a opinião de um político. Pode ser aquela ou qualquer outra e terá os defeitos e as qualidades inerentes à forma como é expressa.

A propensão para a opinião, principalmente convicta e com certeza, existe na razão inversa da consciência da nossa desmesurada ignorância. “Só sei que nada sei”, como terá dito Sócrates, após uma vida de sabedoria, pela qual escolheu morrer. 

Estudar alguma coisa abre horizontes e faz-nos ver, enquanto aprendemos, o que não estamos a aprender. É como um túnel em forma de cone, que se alarga à medida que caminhamos numa linha que, na melhor das hipóteses, poderá engrossar ligeiramente.

Não me parece que seja por, eventual e inevitavelmente, poder ter adquirido algum saber que a vontade de opinar se me está a congelar. Tenho de sobra a quantidade de ignorância necessária para poder escrever ou dizer várias coisas sobre várias coisas que basicamente desconheço.

Temo que seja por intuir que há presentemente opinião em excesso e, nesse caso, podemos ao menos poupar o universo à minha. Com resultado semelhante a deixar de usar palhinhas de plástico para evitar que apareçam no nariz duma tartaruga nas redes sociais, enquanto observo a ilha de plástico no Pacífico Norte que tem uma dimensão superior à superfície conjunta da França, Espanha e Alemanha ou as crianças a correr sobre as águas de rios pobres tão cobertos de lixo que lhes permitem a proeza.

domingo, 19 de julho de 2020

A quadratura do círculo pela União Europeia



A União Europeia tem uma habilidade assinalável para fazer a quadratura do círculo.

São muitos anos de experiência, desde 1957, primeiro a seis, depois a oito, a nove, a doze - em 1986, altura em que se concretizou a adesão de Portugal e Espanha à então CEE - continuando a crescer até aos vinte e oito Estados-membros, atualmente 27 com a saída do Reino Unido. Ao aumento da abrangência é inerente o aumento da diversidade e a dificuldade de obter consensos e, mais ainda, regras que os consagrem e operacionalizem nos diversos territórios.

A coesão europeia, a existência de uma mancha geográfica com alguma dimensão e um mercado significativo, foram fulcrais nos anos após a Segunda Grande Guerra. Permitiram dar sequência, na realidade, à paz alcançada no terreno e criar condições para a recuperação económica que a poderia sustentar. Unidos passaram a Guerra Fria, várias crises de várias naturezas e, atualmente, procuram enfrentar a que parece estar e vir a ser a crise das crises, originada pela Pandemia de Covid-19.

Há que realçar que a União Europeia é uma espécie de milagre político e económico que merece admiração, reconhecimento pelos esforços permanentemente em curso e pelos resultados que se vão alcançando. 

Muitas vezes, tal parece ser possível, mais pelo efeito dissuasor do argumento catastrófico, que pela vontade de a manter. Sente-se uma espécie de condenação a conservar o conjunto, porque sozinhos os países ficariam mais pobres, mais vulneráveis, menos influentes. Uma Europa unida continua a ser fundamental, mais ainda quando a geopolítica global está a mudar radicalmente. É importante que no Ocidente, um grupo minimamente coordenado de países possa ter condições de contribuir para o precário equilíbrio mundial. Embora a força que julgam ter, com reminiscências da revolução industrial e de impérios perdidos no século XX, os faça sentir mais fortes e importantes do que, restringidos aos seus territórios não coloniais e à sua relativamente limitada tecnologia, realmente são. O que não retira força à necessidade de, mesmo com o não muito que resta, ser mantida alguma relevância no novo mapa-mundo-universo.

Posto isto, constata-se que após rondas intermináveis de negociações é, por vezes, conseguido um ou outro acordo sobre intenções vagas, enunciadas em estratégias, orientações, livros de várias cores, discursos que os anunciam como algo muito importante, já que se pretende invariavelmente o reforço do mercado comum, através da afirmação dos valores europeus, sempre com o respeito pelos direitos fundamentais e a dignidade da pessoa, bem como o crescimento, simultaneamente sustentável e enorme, em livre concorrência. Tudo com uma enorme solidariedade, compreensão e entreajuda. 

Agora estão a negociar pacotes e medidas para o cataclismo viral. Oxalá consigam. Oxalá todos consigamos.

Essencialmente, é isto. Seja qual for o tema em causa, é mais ou menos isto. 


sexta-feira, 17 de julho de 2020

Rights for AI?


“Does AI - and, more specifically, conscious AI - deserve moral rights? In this thought exploration, evolutionary biologist Richard Dawkins, ethics and tech professor Joanna Bryson, philosopher and cognitive scientist Susan Schneider, physicist Max Tegmark, philosopher Peter Singer, and bioethicist Glenn Cohen all weigh in on the question of AI rights.”

From “Latest News from the Petrie-Flom Center” at Harvard Law School: Glenn Cohen - who began serving as a Deputy Dean at Harvard Law School - participated, with some of the best thinkers on AI, in a reflection on “Does conscious AI deserve rights?” (Big Think video here).

domingo, 3 de maio de 2020

Fim da emergência, início da calamidade


Hoje, dia 3 de maio de 2020, é o dia nacional do fim da emergência e do princípio da calamidade.

Uma emergência costuma ser algo que, sendo bem tratado, evita uma calamidade. Não sendo, efetivamente esta sucede-lhe. Dificilmente se poderá avaliar já se aquilo a que chamam calamidade económica e social seria diferente se aquilo a que chamaram emergência médica tivesse sido diferente. O tempo, se o houver, e a História, se for feita, o dirão.

Por agora, sobre o estado das coisas dizem-se terabytes de coisas, como convém à liberdade de expressão. Hoje é, também, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, que é uma coisa diferente, embora esta pressuponha aquela. A liberdade de expressão costuma ter por epicentro o próprio umbigo, a liberdade de imprensa – que impõe interpretação atualista – costuma ter por epicentro outros umbigos. Ambas são cansativas, quer para quem se expressa, quer para os destinatários. Ambas são fundamentais.  

Hoje é, também, Dia da Mãe. O doodle da Google diz “Dia das Mães” e, provavelmente, tem razão.

O princípio da calamidade impõe hoje a proibição de circulação entre conselhos e mantém a proibição de visitas a Lares, com vista a evitar-se o regresso à emergência, previsto quinzenalmente. 

Estas medidas higiénicas zoomizam a maioria dos abraços às progenitoras que, de qualquer modo, já seriam, sensata e calamitosamente, dados com máscaras e evitam que descendentes e ascendentes até ao último grau se coíbam de procurar sanidade física e mental em locais apetecíveis, num dia de verão extemporâneo, como a praia ou o campo do concelho limítrofe, procurando evitar futuros cordões sanitários.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

História do gato que vive para sempre


O velho que lia romances de amor desde que nasceu, morreu.

Luís Sepúlveda, escritor chileno, por nascimento e devoção, escritor global por exílio e vocação, escritor herói como queremos que sejam, lutando por ideais e pela liberdade, preso e exilado, jornalista e ideólogo, morreu aos setenta anos. Pelas contas de hoje em dia poderia viver, sem grande dificuldade, mais vinte ou trinta anos produzindo a prosa maravilhosa, no duplo sentido de excelente e mágica, que conseguia produzir.

Leu, aos 16 anos, Moby Dick e decidiu que a melhor forma de enunciar o que pretendia dizer era através dos animais. Escreveu bastante, não o bastante, em vários registos, sendo as fábulas um dos que lhe é mais reconhecido. Escrever fábulas tem sido uma forma muito eficaz de sintetizar e permitir visualizar a história e, principalmente, a moral da história. São, também, especialmente aptas à leitura por crianças e jovens, inscrevendo-as na sua educação. Lembramo-nos muito bem das histórias de animais que lemos ou vimos em pequenos, em desenhos animados (era assim que se chamavam antes de se chamarem outras coisas, como filmes de animação). Lembramo-nos das fábulas de Sepúlveda, “História de (…)” contando coisas implausíveis, como a mais conhecida em que um gato ensina uma gaivota a voar. Lembramo-nos, em paralelo, do Triunfo dos Porcos de Orwell e da Montanha da Água Lilás de Pepetela, murros no estômago políticos e económicos, doces e ternos murros no estômago.

Escreveu muitos outros géneros, como romances, contos ficcionais e reais. Escreveu muito sobre política, ideologia, ideais. Principalmente escreveu muitíssimo bem.

Numa pequena peça do Telejornal passaram excertos duma entrevista que deu recentemente em Portugal e, do que disse, duas coisas pareceram-me especialmente lindas. 

Uma é que os escritores têm uma capacidade muito especial, “somos capazes de criar beleza com o que escrevemos”. 

A outra tem a ver com o 25 de abril, a revolução dos cravos em Portugal que inspirou outras, tornou-se na evidência de que era possível derrubar regimes ditatoriais e, no caso, sem banhos de sangue. A notícia chegou aos resistentes da América do Sul, ao escritor, nos seguintes termos “O que se passa é que vocês ganharam em Portugal”. Sentiram que não estavam sós e que era possível ganhar.

É uma imensa pena que um dos que era capaz de criar beleza no mundo não possa continuar a fazê-lo.

As Rosas de Atacama murcharam. Depois lembraram-se de quem é Luís Sepúlveda, endireitaram-se, compuseram as suas pétalas, encontraram na seiva que conseguiam extrair do deserto a força que lhes permitiu mostrarem-se maiores e mais bonitas, como A Morena e a Loira. Contendo heroicamente as lágrimas, com uma dignidade que lhes é intrínseca, respiraram fundo, brilharam, sorriram e olharam para a frente. 

domingo, 8 de março de 2020

Predictions – from Delphi Oracle to GPT-2 AI

Humans just love predictions. From Delphi Oracle, a women with power, to GPT-2, an AI created by OpenAI, they ask for it.
The Economist interviewed GPT-2, a neural network for natural language processing, about the future and Singularity Hub presented it here.
“What’s past is prologue.”, in Shakespeare’s "The Tempest", is a beautiful summary of the classic method, alleging that we can look to what has already happened as an indication of what will happen next.
GPT-2 when asked if it had any advice for readers replied “The big projects that you think are impossible today are actually possible in the near future.”. 
For now, it sounds like a La Palice’s true. Probably the point will be the word “near”. How near? 

sexta-feira, 6 de março de 2020

Augmented Machines with humans?

Internet image (article also about this issue here)

“For a Bright Future of Work, We Must Get Better at Collaborating With Machines” is the title of a Peter H. Diamandis’s article, recently published in the Singularity Hub, here.
“Productivity is the main reason companies want to automate workforces. Yet, time and again, the largest increases in productivity don’t result from replacing humans with machines, but rather from augmenting machines with humans. It’s all about collaboration.”, he claims.
Collaboration is frequently the key. What surprised me was who must collaborate with whom. Not machines helping humans, or humans using better machines, but augmented machines with humans.
Heavy food for thoughts.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Supremacia Quântica - Milhares de anos em segundos


Um artigo de opinião de minha autoria, sobre supremacia quântica, foi publicado na edição de fevereiro da Revista Frontline - Ler é Poder, pp. 40-41, acessível também aqui.

O by the way é o anuncio de que a Google, em resultado de uma parceria com a NASA e o laboratório americano ORNL, havia alcançado a supremacia quântica. Este anúncio vem cerca de um ano após divulgação pela IBM de significativos desenvolvimentos no seu computador quântico, registado com informação e espanto estético neste blog aqui.

Edição de fevereiro da revista Frontline - Ler é Poder, com reprodução digital da revista impressa, disponível aqui.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Uma AI de si próprio

Construir uma Inteligência Artificial (AI – Artificial Intelligence) que replica melhoradamente a pessoa, que se relaciona com outros e com o seu próprio original é, no mínimo, estranho e, claro, está a acontecer.
A AI Foundation está a desenvolver um projeto que vai permitir a cada pessoa ter uma espécie de clone de si, em modo digital, interativo e, por isso, evolutivo.
A experiência vai começar com Deepak Chopra, autor de 73 livros, guru de medicina alternativa e meditação, que aceitou ser a cobaia. No inicio de 2020 haverá uma versão dele em AI, sob a forma de uma app. Pode-se ver a apresentação, de Deepak Chopra AI, por si próprio(a) aqui.
Cada interessado descarrega a app, conversa com Deepak AI, explica os seus problemas, ansiedades e aspirações e recebe uma resposta, meditações à medida e conselhos certamente muito bons. Na vez seguinte é tudo parecido, mas melhor, já que a AI aprendeu com a interação anterior, incorporou os novos dados e ajustou a “medicação”. E assim sucessivamente, no caminho do que parece poderá vir a ser uma simbiose bastante intensa.
A pergunta que aqui formulo, guardando todas as outras infinitas que me ocorrem, é a seguinte: admitindo que não é possível (ainda) incorporar no Deepak biológico o que o Deepak AI digital vai estar permanentemente a aprender com centenas, milhares, milhões de utilizadores, em que momento a AI vai ser muitíssimo mais capaz que o original? Uma hora depois, um dia depois, mais tempo depois? E, quando se comparar o Deepak AI com o biológico, alguém preferirá o biológico? Boa sorte Deepak. Sugiro que descarregue a sua app de AI para se ir ajudando durante a experiência.
Vamos esperar para ver. Em 2020 já deve haver dados reais para serem avaliados e estudados. 

domingo, 17 de novembro de 2019

Linearmente – ainda é nisto que estamos


O nosso raciocínio é linear. Pensamos uma coisa a seguir à outra e queremos acreditar, ou cremos, que as coisas se passam do modo como as conseguimos pensar. Quando se tornam muito complexas, procuramos chegar lá por partes. Analisamos um bocadinho, depois outro, como num puzzle duma paisagem, isto é mar, isto é sol, isto é céu, isto não sei, fica de parte. Fazemos montinhos com o critério do que nos parece a caraterística principal. Verde, árvores. Azul com ondulação, mar. Azul com nuvens, céu. Depois, nos montinhos, vamos tentando encaixar. Ficamos com várias ilhas, usamos a intuição, que mais não é que experiência de que não tomámos consciência e, com uma grande dose de sorte, completamos o puzzle. Não é por acaso que são também chamados quebra-cabeças. Alguns, mais prudentes, temendo não voltar a conseguir terminar a tarefa se a repetissem, colam tudo e mandam emoldurar.
Na história é o mesmo. Éramos macacos, começámos a andar em pé, opusemos o polegar ao indicador e aos outros dedos, inventámos, ou lá o que foi o fogo, cozinhámos comida, acumulámos energia facilmente e desatámos a pensar. Quando demos por nós estávamos a escrever, fizemos e desfizemos reinos e impérios pelas razões clássicas da ganância, desigualdade e curso normal das coisas Inventámos a eletricidade e a máquina a vapor. Na política inventámos, ou lá o que foi, a liberdade, a fraternidade e a igualdade a par da guilhotina, uma sem a outra não resultava. Dizimámos a América quando lá chegámos com as doenças que levávamos. Inventámos modo de acabar com a fome e vendemos aos pobres sementes estéreis. Descobrimos a energia nuclear e, de uma assentada, demos cabo de duas cidades e quase do mundo. Damos cabo do planeta, metódica e sistematicamente, com a alegria do consumo que atenua a depressão do capitalismo que perpetua. Fomos à Lua, descobrimos o espaço, voltamos a pensar em colonização, pela razão clássica de que já destruímos tudo em que tocámos e precisamos de mais para arruinar. Ao lado, damos boas razões para fazermos as coisas. Os selvagens precisam de ser salvos, a energia nuclear é limpa, a liberdade é o valor que estamos a defender quando espiamos e perseguimos e prendemos e torturamos e matamos e invadimos e dizimamos. As coisas seguem-se umas às outras, de preferência numa simpática sucessão de causa/efeito que as legitima, se dúvidas houvesse. Foi torturado e confessou tudo, na Inquisição e na atualidade. Tudo coisas, umas coisas a seguir às outras, arrumadinhas, alinhadas, lineares. Como o nosso pensamento.
O problema é quando o mundo se torna complexo. Não complexo, como que coisa tão complicada, não estou a perceber bem, mas efetivamente complexo. De uma complexidade tal que por mais montinhos que façamos o puzzle se mostra infinito e impossível de resolver. É nisto que estamos. É aqui que entra a inteligência artificial. É aqui que, de pensarmos, passamos a ser pensados. É aqui que algo que não faríamos em milhões de anos é feito em segundos. É aqui que um cérebro artificial, alimentado pelos nossos limitados cérebros humanos que, de todas as formas possíveis, lhe fornecem a informação de que necessita para funcionar, trabalha. Não vamos dizer que pensa, que isso é considerado ofensivo. Que funciona. É aqui que estamos. Noutro dia veremos para onde vamos.

sábado, 6 de abril de 2019

Centauro alado


Depois da vitória no xadrez de Deep Blue, o computador, sobre Garry Kasparov, o humano campeão mundial desse jogo, a humanidade sentiu-se ligeiramente ultrajada.

Alguns resolveram não acreditar, o que é sempre um bom princípio, outros deitaram as mãos à cabeça que continha o cérebro e terão exclamado "Meu Deus, onde é que isto vai parar" e outros disseram que afinal era só um jogo de xadrez, brincadeira de crianças, se fosse um jogo a sério, outro galo cantaria. As pessoas quando ficam espantadas têm uma certa tendência para recorrer a Deus e aos provérbios, já que ambos contém acumulada sabedoria de muito tempo, o que ajuda a pensar o impensável.

A ocorrência da vitória dos bites deu-se em 1997, ainda o milénio não tinha sido dobrado. Vivia-se nessa altura numa saudável eminência do fim do mundo no ano 2000, há muito prevista. Nada que tivesse o atual fundamento já que há 20 anos ainda não era tão evidente até que ponto estávamos a dar cabo do planeta. Por essa altura, acresceu uma, à data moderna, previsão dum simultâneo fim do mundo, por razões de ordem tecnológica relativas à alegada incapacidade dos computadores então existentes, se acertarem com o número 2000 a indicar o ano. Felizmente, ao soarem as doze badaladas e ao surgir 00:00 nos relógios digitais nada aconteceu de mais especial, que o início de um ano novo. A não concretização do fim do mundo nessa data deu oportunidade à humanidade para se continuar a dedicar pessoalmente ao tema com o sucesso que cheias, secas, incêndios, tornados e outros fenómenos meteorológicos extremos demonstram.

A propósito da competição histórica entre Deep Blue e Kasparov, em 29 de julho de 1997, o The New York Times publicava: ''It may be a hundred years before a computer beats humans at Go - maybe even longer,'' said Dr. Piet Hut, an astrophysicist at the Institute for Advanced Study in Princeton, N.J., and a fan of the game. '.

Demorou um bocadinho menos. Em 2016 um computador venceu o campeão mundial de Go. O homem do Go, em termos gerais, não era muito diferente do homem do Xadrez. Ambos, aliás, não eram muito diferentes do homem que descobriu o fogo ou a roda. A evolução da espécie humana é bastante lenta e, em milhões de anos pouco mais conseguiu que começar a perder os dentes do siso. O computador, pelo contrário, evoluir extraordinariamente. Passou de máquina programada pelo homem a máquina que, depois disso, consegue aprender sozinha. De soma e processamento de quantidades enormes de dados, no caso do xadrez de jogadas registadas, passou a inventar novas jogadas que não se conheciam. Passado algum tempo nisto, venceu no Go.

Após a experiência que causou embaraço à espécie humana, criaram-se equipas de centauros, compostas por humanos e AI (Artificial Inteligence). Parece que uns e outros cometem erros de natureza diferente, por isso a colaboração poderá ser, além de inevitável, frutuosa.

A figura do centauro para representar esta nova simbiose mostra que constelações, mitos e clássicos continuam tão aptos como sempre estiveram para integrar o novo. Acrescentar à equação Pégaso dar-lhe-ia asas. O que faria de cabeça/cérebro num cavalo/homem/alado fica em aberto. Os deuses devem estar a tratar do assunto, com a eficácia que têm demonstrado.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

2060 AI vs Humans result: AI 1 - Humans 0


A 2017 survey of more than 350 AI researchers predicts AI could be a better driver than humans within ten years. By the middle of the century, AI will be able to write a best-selling novel, and a few years later, it will be better than humans at surgery. By the year 2060, AI may do everything better than us.here.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Moralidade humana? Perguntem à AI


Entenderam os humanos que haviam de ter carros que os dispensassem da condução, para se dedicarem a outras tarefas mais prazenteiras. Esses carros teriam de tomar decisões e, pensou-se, essas decisões (poder)iam assentar em moralidade. Precisamente na moralidade humana. Era, pois, coisa para envolver a Moral, que a própria humanidade desde que o é não sabe o que é, nem consegue devidamente distinguir da Ética, da Religião, da Justiça, do Direito.

Para se obviar a essa questão cientistas resolveram fazer uma experiência, em curso desde 2014, cujos resultados foram publicados na revista Nature e agora divulgados.

Para se aferir a moralidade da humanidade ao volante, através da estatística, um método tão bom como qualquer outro, foi colocado um pequeno questionário online. É sabido, sem serem necessárias sequer estatísticas, que a humanidade adora questionários.

Então, incrivelmente, 40 milhões de pessoas, de 213 países sentiram-se suficientemente seguras e certas para responderem a perguntas sobre quem, em alternativa, matariam se fossem ao volante. No conforto do seu telemóvel escolheram entre velhinhos e jovens, homens e mulheres, ricos e pobres, pessoas e animais, muitos ou um só. Enfim, fizeram a prova avançada dos testes psicotécnicos, em versão simplificada. Não parece que se tenham incluído padres, doentes terminais, mulheres grávidas e outras categorias problemáticas.

Ora, por alturas de 2014, em que o volume de big data já era considerável, foi ultrapassada uma fronteira arriscada. Os computadores, que neste âmbito passaram a denominar-se Inteligência Artificial, começaram a aprender consigo próprios (deep learning), à imagem do cérebro humano em redes neurais. Desde aí até agora, desenvolveram-se extraordinariamente a Internet das Coisas, a DLT, as redes sociais, os embriões de cyborgs, a capacidade de analisar a sempre crescente big data.

Não seria, pois, mais eficaz perguntar à Inteligência Artificial qual é a moralidade da humanidade ao volante? Se o Senhor AI ainda não sabe, vai-se informar num instante.