This is not true, but it is very easy to do.
segunda-feira, 26 de agosto de 2024
Auto-retrato de Van Gogh, mais ou menos
segunda-feira, 24 de julho de 2023
Filósofos pré-socráticos - paradoxo designativo
Os filósofos
pré-socráticos não são anteriores a Sócrates.
É bom sabê-lo. Em
primeiro lugar, porque os paradoxos são sempre apetitosos.
Depois, na
medida em que é um minúsculo passo no sentido de se ter algum conhecimento.
É, também, bom
sabê-lo na medida em que aumenta a consciência da dimensão da ignorância que se
tem o que, não só é saudável e revigorante, como faz jus ao próprio Sócrates
que levou uma vida inteira para saber que nada sabia. O que, como se não
bastasse, lhe valeu um copo com cicuta que não lhe fez nada bem à saúde.
Esse conjunto de
pessoas, algumas contemporâneas de Sócrates, ganhou essa denominação por uns
estudiosos do século XIX terem chegado à conclusão de que havia “uma diferença significativa
de interesses” entre umas e outro. Ao conjunto das primeiras, os estudiosos chamaram,
como Aristóteles, “físicos”, porque se dedicavam a questões sobre a natureza e
origens do mundo. Já Sócrates preocupava-se principalmente com a ética.
São fascinantes,
os pré-socráticos. Aparentemente disseram tudo o que havia para dizer, mas
resumidamente.
É por isso que
vou ver se os abordo, um a um, como um exercício de memória, que bem merecem.
E, depois, vou por aí fora, por todos os tempos e por todo o mundo.
Com todo o
mérito de “Uma História da Filosofia”, de A. C. Grayling, com que conto para
conseguir contar.
quarta-feira, 7 de setembro de 2022
Mezli, o restaurante-robot – de Stanford à street food
Em San Francisco, está em
funcionamento o, mais ou menos, primeiro restaurante completamente automatizado
do mundo. Tem a forma de um contentor que, de um lado, recebe os pedidos dos
clientes que se atrevem a experimentar e, do outro lado, lhes entrega a refeição que
escolheram. Pelo meio, mistura ingredientes, leva-os ao forno, faz misturas
programadas.
Foi criado por três
empreendedores oriundos de Stanford que trataram da robotização. Juntou-se-lhes
um chef de cozinha, já que uma coisa é apresentar comida, outra é ser suficientemente
saborosa para se desejar consumi-la.
Fica mais barata e foi considerada
“pretty good” por um crítico de cozinha. É o que a SingularityHub
e a Eater
San Francisco nos contam, com detalhe.
domingo, 25 de abril de 2021
Klara e o Sol
Candura dura como o metal de que é feita pode ser a primeira, segunda e, principalmente a última impressão que nos deixa o mais recente livro de Kazuo Ishiguro. A candura de Ishiguro tem muito em comum com a de Steinbeck. São estilos de escrita totalmente diferentes, mas o fio condutor, a glia que une as personagens, as histórias pequenas que deixam ver a grande, maior que o livro, maior que a vida, a brutalidade incomensurável ternamente descrita, sem floreados, sem adjetivos, só factos pontiagudos, aguçados, dilacerantes, docemente colocados um a seguir ao outro, como se só pudesse ser assim, vislumbrando-se alternativas possíveis e inviáveis, como numa enxurrada que vai por onde iria sempre, mesmo que pudesse ir por outo lado.
Não é uma candura subjetiva, humana, pequena, individual. Praticável. É a candura subjacente à humanidade, ao Universo, intemporal, amoral, avassaladora.
Não vou contar o livro, refiro só o que está na contracapa, que é público e notório. Klara é a protagonista narradora, uma Amiga Artificial (AA), que espera numa loja para ser comprada, de modo a conseguir concretizar o objetivo da sua criação.
Kazuo é japonês e inglês, em simultâneo. Nasceu no japão, é de substrato japonês. Foi para Inglaterra aos cinco anos, cresceu inglês. Nasceu numa ilha a Oriente, fez-se noutra ilha, a Ocidente. A escrita de Ishiguro tem a depuração, a essência, o sentido de dever japoneses, num cenário ocidental. Deixa quase tudo à imaginação do leitor, o que poderá ser a caraterística mais estrutural dos grandes clássicos. Cada um, em cada tempo e lugar, preenche a história com a sua história, com o seu conhecimento, com a sua experiência, fazendo de cada leitura um exemplar único do livro, que se perpetua infinitamente. Este vencedor do prémio Nobel da Literatura, em 2017, faz isso magistralmente. Tece uma teia aberta, dá a estrutura e o cenário, traça os contornos das personagens e deixa-nos o encargo de construir a narrativa que será a nossa, com a nossa substancia, terrores e anseios.
A história é do futuro, mas pouco.
Vale a pena, para todos, mas principalmente para quem segue o tema da Inteligência Artificial, aproveitar esta oportunidade para absorver o que a arte, em geral, e a literatura, em particular, fazem melhor que qualquer ciência: a criação de hipóteses que nos permitem visualizar, intuir, saber o que foi, é e será.
“O sol tem sempre forma de nos alcançar”.
quarta-feira, 31 de março de 2021
BPM e a frequência da terra
“BPM” são batidas por minuto, unidade de medida no coração e na música. É também o título do novo álbum que Salvador Sobral está a lançar. Ontem, numa entrevista, o autor explicava que quando fez um transplante de coração e estava no hospital, tinha sempre o batimento cardíaco monitorizado, identificado no ecrã por BPM. Como batidas por minuto é também a medida da música, no tempo que ali passou, esse elo dava-lhe sentido e alento.
Parece que a terra também tem o seu “batimento” que, na frequência 7.83 Hz, poderá coincidir com ondas do cérebro humano, influenciando-o.
A possibilidade de existir um ritmo comum, subjacente a tudo, é uma questão, no mínimo, emocionante.
sábado, 27 de março de 2021
O miolo da noz
Os bons livros de ficção contêm em si sínteses extraordinárias, difíceis de
encontrar noutros recipientes, com a exceção, normalmente menos bela, dos
provérbios populares.
Deparei-me agora com uma pequena pilha de livros que foram saindo das
prateleiras por alguma razão e foram ficando empilhados numa desarrumada
arrumação durante muito tempo. Peguei neles e ia distribuí-los pelas respetivas
secções a que pertencem, seguindo o critério relativamente vago e muito
flexível das minhas estantes.
A questão é que quando isso acontece, isto é, quando pego em livros que li
há muito tempo, com a intenção de os transportar de um sítio para outro,
dificilmente resisto à tentação de os abrir ao acaso, passando os olhos por
alguns parágrafos. O que se lhe segue é ser invadida pelo espanto, encher-me de
um “como é que é possível pensar/escrever/sintetizar tão bem?”, enquanto me
encosto ou sento onde estiver, esquecida do que ia fazer.
Acabou de acontecer, com a agravante de que havia uma página com um canto
dobrado, que me propus reconduzir ao estado direito, enquanto pensava se seria
um esquecimento de marcação dum tempo em que os marcadores oficiais eram raros,
ou se estaria a assinalar algo notável.
Fiquei imediatamente esclarecida ao encontrar o seguinte:
- Que acontecimentos?
Madame Liang pôs o cigarro no cinzeiro, para poder contar pelos dedos. Começou pelo pequenino da mão esquerda e foi até ao polegar:”.
Em Pearl S. Buck, As Três Filhas da Senhora Liang, Colecção Dois Mundos, Edição
«Livros do Brasil» Lisboa, Rua dos Caetanos 22,1969, p.63. Diz também “Venda
interdita nos Estados Unidos do Brasil”.
quinta-feira, 25 de março de 2021
Leitura de pensamentos – novo avanço tecnológico
Todos os dias, literalmente todos os dias, eventualmente várias vezes, cai mais um bastião daquilo que mantinha o ser humano único, autónomo, no controlo de si próprio e da realidade que o rodeia, excluindo naturalmente catástrofes ou outros acontecimentos imprevisíveis e intrinsecamente incontroláveis.
Um estudo realizado na Queen Mary University de Londes, publicado no Plos One, em 3 de fevereiro de 2021, divulga o trabalho de cientistas que propõem uma nova maneira de detetar emoções através de “wireless signals”, mais concretamente ondas de rádio.
É muito útil, porque permite identificar emoções lendo diretamente os pensamentos, o que serve para vários fins de que se destacam a deteção de discrepâncias entre o que se diz e o que se pensa.
Em 1949, foi publicado Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell, que já continha o essencial sobre o assunto de um ponto de vista macro e político. Não há muito a acrescentar. A aplicação do conceito aos vários contextos em que o ser ainda humano se move, social, familiar, religioso, laboral, judicial, e todos os outros em que possamos pensar, é por si só a evidência do que está em causa. Quando à pergunta “Achas que esta roupa me fica bem?”, seja dada a simples e educada resposta esperada “Fica ótima.”, várias crises se perspetivam oriundas da leitura do pensamento que se conteve. Se as perguntas forem feitas em contexto judicial, o problema pode ser mais grave ou, pelo menos de consequências diferentes. No campo religioso, dado que Deus já possui essa faculdade, as questões ficam circunscritas ao terreno. Noutros campos, outras consequências ocorrerão.
A comunicação direta entre cérebros, no que poderá ser denominado Internet of Brains (IoT), já causava perplexidade bastante, como pode ser lido aqui, mas parecia implicar ainda algum controlo sobre o pensamento que se transmitia.
Neste artigo
do The Machine, podem ler-se outras aplicações ou variações nesta temática,
nomeadamente no que diz respeito aos Brain Computer Interfaces (BCI), que podem ser
externos sob a forma de uma espécie de capacetes e que permitem coisas tão
fúteis como corridas de drones diretamente comandados pelo pensamento, ou tão
extraordinárias como a possibilidade de alguém privado da fala poder simplesmente
pensar nas palavras que quereria dizer, sendo estas proferidas por um
dispositivo criado para o efeito.
Estes BCI também podem ser internos, sob a forma de implantes
no cérebro, coisa que Elon Musk, na Neuralink, uma das suas várias bilionárias empresas
está a desenvolver, com o objetivo de possibilitar que o pensamento humano
possa ser aumentado e minimamente competitivo com a inteligência artificial. O que, julga-se, será acessível a quem o possa pagar.
Enfim, tudo isto existe, tudo isto não sei se é triste, e tudo isto aparenta ser fado. Vamos ver no que dá, quer queiramos, quer não.





