domingo, 8 de novembro de 2020

Contrato do Utilizador, ou lá o que é

imagem da net - NYT

Hoje tive uma surpresa quase-contratual muito instrutiva. 

No âmbito do desenvolvimento da minha exigente relação com o telemóvel que comprámos há relativamente pouco tempo resolvi, não me lembro porquê, ler aquilo a que o próprio chama “Contrato do Utilizador”.

Embora este seja um assunto extremamente sério que me deveria levar compenetradamente a enunciar mais uma vez a necessidade de as pessoas serem devidamente protegidas, com um resultado semelhante ao dos que ainda há mais tempo alertam para as catastróficas consequências das alterações climáticas. Isto é, “basicopraticamente”, como tão bem escreveu António Lobo Antunes numa crónica, nenhum.

O que lá encontrei, no entanto, abriu um parênteses nessa epopeia e proporcionou-me dois momentos de grande divertimento, pese embora o utilizador seja claramente eu.

Começo pelo segundo, que consta do ponto 14. que me informa que “Este Contrato é assinado no distrito de Haidian, Pequim.”, embora não entre em pormenores sobre os temas: assinado? Por quem?, o que me dá margem para pensar que um representante da empresa se sentou a assinar um contrato no distrito de Haidian. No mesmo ponto 14. sou descansada com os seguintes dizeres “A interpretação, a eficácia e a resolução de disputas são aplicáveis às leis da República Popular da China. Na ausência de disposições legais relevantes, é feita referência às práticas comerciais e/ou práticas comerciais internacionais.”. Ainda bem que li, porque fiquei devidamente esclarecida sobre uma série de coisas, embora não saiba bem quais.

O segundo assunto, que já não me diz diretamente respeito, consta do ponto 12. e tem a ver com a “Utilização por menores de idade”. Aí, depois da conversa habitual sobre a vigilância parental vem um sub-ponto com a seguinte maravilha: “Um menor de idade deve respeitar a Convenção Nacional Chinesa de Comportamento na Internet para Adolescentes: (1) utilizar a Internet para aprender e evitar informações destrutivas; (2) ser honesto e amigável na comunicação, e não para insultar ou ofender os outros; (3) aumentar a consciência do autocuidado e evitar o encontro com desconhecidos online; (4) manter a segurança da rede e não perturbar a ordem da rede; e (5) manter a saúde física e mental e não desenvolver o vício no ciberespaço.”.

O que tenho a dizer em relação a isto é que acho muitíssimo bem e que fico muito mais descansada por saber que os adolescentes, menores de 18 anos, que têm um telefone da marca do meu e, atrever-me-ia a admitir que de muitas outras marcas, são obrigados a respeitar aquelas regras ou outras igualmente boas. E mais, utilizando o telefone sempre sobre a atenta vigilância dos seus parentes, como naturalmente acontece, principalmente na faixa etária 12-18, a obrigação deve estender-se a esses mesmos parentes e aos outros, bem como aos amigos, para ninguém ser desencaminhado.

Como tudo está bem quando acaba bem, saí rapidamente daquele sítio perigoso online para evitar informações destrutivas e, não tendo procedido à destruição do aparelho como o mais elementar bom senso determinava, continuei a usar, como toda a gente, o relativamente pouco smart phone



domingo, 11 de outubro de 2020

Smartphone – ser (humano) usado pelo telefone

imagem da net

Tenho um telemóvel novo, o que é extremamente desagradável. Esta inevitabilidade ocorreu pelas razões normais da obsolescência programada que, no meu caso, é vencida em alguns anos já que me é indiferente perder funções. No limite gostaria mesmo de perder o próprio telefone e manter-me num nível de desconexão e ausência de estímulo não escolhido nem desejado, que são a base da liberdade e da criatividade. Para continuar a manter-me refém uso os argumentos do costume, todos válidos. A vida, atualmente, pressupõe conexão e, não a tendo, implica exclusão. O que, contas feitas, significa escolher entre ser ermita em autossuficiência num campo, sem internet, ou viver e trabalhar em sítios com internet tornando-se, neste caso, a conexão inevitável.

Há algumas situações intermédias em que pessoas cheias de valor tentam fugir ao mainstream e usar coisas alternativas, menos invasivas e dominadoras, normalmente mais caras e a exigir um elevado nível de conhecimento informático. É, por exemplo, o interessante caso de Julia Angwin que em 2014 - imagine-se! – escreveu no New York Times um artigo com o título “Has Privacy Become a Luxury Good?”, disponível aquiLogo no início afirmava “LAST year, I spent more than $2,200 and countless hours trying to protect my privacy.”. A experiência decorreu, portanto, em 2013, completamente na pré-história da atualidade, já que foi mais ou menos por essa altura que se deu a explosão do machine learning, logo seguida da explosão do deep learning (aprendizagem mecânica usando redes neuronais artificiais, do inglês ANN para Artificial Neural Nets). O que significa que se situação semelhante ocorresse agora, tudo indica que o preço e o tempo aumentariam e os resultados piorariam.

Realizar esta experiência, por falta de dinheiro e/ou conhecimentos, não está ao alcance dos comuns mortais. Esta expressão vai progressivamente caindo em desuso, pelo menos para os muito ricos, na proporção da sua conquista da imortalidade, tanto física – ainda a alguma distância – como digital, esta já uma realidade corrente em várias formas, de que se destaca o exemplo mediático de Deepak Chopra, famoso guru que ajuda a humanidade, agora também através da uma inteligência artificial de si próprio, já que aceitou ser cobaia na experiência da AI Foundation (mais detalhe aqui).  

Sucede, então, que o meu novo telefone é incomparavelmente mais irritante que o anterior, por variadíssimas razões, de que se destacam duas.

A primeira é-lhe alheia e tem a ver com tudo o que se perde quando se muda de dispositivo, principalmente porque em vez de o que temos estar guardado num sítio qualquer, está guardado noutro sítio qualquer. Claro que sobrolhos se franzem neste momento, pensando “Santa ignorância, porque é que não tem tudo sincronizado e/ou guardado numa nuvem desta vida e da outra, sempre disponível?!”. Têm toda a razão já que se assim o fizesse, à partida, não teria problema. E convenhamos que tanto o sr. Google, como o sr. Alibaba e outros senhores do ocidente, do oriente e do meio, saberiam de qualquer modo o mesmo, isto é, tudo e também mais alguma coisa. Resisto, no entanto, para meu óbvio mal.

A segunda é o facto de a Inteligência Artificial que tem, ser muito esperta para umas coisas que lhe interessam e extremamente estúpida para outras que me podem interessar a mim. Por exemplo, é exímia a detetar movimento e ao menor toque no telemóvel parece Natal, com luz a acender-se e, neste caso, também com notificações e emails a chegarem freneticamente nesse instante, o que só pode ser uma coincidência. Em contrapartida, é de uma exasperante burrice na escrita, insistindo em corrigir e acrescentar o que estava certo e completo e, com a sua intervenção, fica errado e disparatado. Sei que isto lhe vai passar à medida que eu, com uma paciência que não tenho e estando condenada a ensinar-lhe, for explicando como se faz.

É nesta atividade pedagógica que a humanidade tem estado. Esforçada, exasperada por vezes, obedecendo a ordens “Agora diz: faz uma chamada para a Maria”, repetindo, voltando a repetir mais devagarinho, apagando e reescrevendo. Principalmente gravando tudo, vídeos, imagens, só voz, reuniões, paisagens, viagens, videochamadas pessoais e profissionais, dados biométricos, os do sono, os do fitness, as impressões digitais e a iris que já desbloqueiam dispositivos perfeitamente normais e correntes, e etc, até ao infinito e mais além.

Há algum tempo que se me vai avolumando a convicção de que vai deixando de ser a pessoa a usar o telemóvel, passando a ser o telemóvel a usar a pessoa. O smartphone vai passando de uma extensão do humano que o detém, para um situação em que se integra com a pessoa numa simbiose crescentemente intensa, caminhando-se paulatinamente para a situação em que o dispositivo, carregado de internet e inteligência artificial, usa a pessoa para que lhe mostre tudo o que precisa de saber e ver. Literalmente ver. CV, antes indubitavelmente Curriculum Vitae do latim, é hoje pacificamente Computer Vision do inglês.  

Máquinas aumentadas com pessoas, e não o contrário, parece-me ser onde estamos e para onde vamos, com uma convicção de inevitabilidade. “Vemos, ouvimos e lemos” e devemos ignorar. 

Tem de ser e eles é que sabem.


terça-feira, 28 de julho de 2020

A sabedoria e o cone da ignorância



A vontade de emitir opiniões tem-me vindo a diminuir. Atualmente tende para o zero.

O momento próprio para dar opiniões é a adolescência, altura em que somos suficientemente ignorantes para as ter em abundância e sem grandes reticências e sabemos exatamente para onde mudar o mundo, o que é um descanso.

Um pouco mais tarde, em jovens, já começamos a ter algumas dúvidas, mas a pujança intelectual e física, o impulso imparável da energia que acumulamos, leva-nos a desconsiderá-las e a avançar para concretizar ideias novas e de grande fôlego. 

Novas, na medida em que é possível ter ideias novas, que é quase nenhuma. Desde as sociedades mais antigas, passando por Roma e pela Grécia Clássica, sábios de proveniências várias, religiosos e leigos, afirmam com propriedade que já tudo foi dito e feito sobre tudo. O que significa que, normalmente, uma ideia nova é nova para quem a tem, por desconhecimento de que já havia sido tida. O que não tira mérito nenhum, antes pelo contrário, já que ter ideias excelentes por si próprio, idênticas às que alguém brilhante já teve algures no tempo, é maravilhoso.

Mais tarde, é costume enveredarmos por uma profissão ou área e especializarmo-nos. Não tem de ser necessariamente especialização intelectual ou científica, pode ser na agricultura, na indústria, nos serviços. Pode, também, ser na própria opinião, seja em humanidades, com recurso a muita cultura geral e estudo específico de alguma matéria, seja em ciências naturais, engenharia ou outras. Pode, numa derivação, ser no jornalismo, que recolhe e trabalha factos e opiniões. Nessa especialização, ficamos reféns do afunilamento a que nos sujeitamos que nos aporta algum saber e a consequente prudência ao enunciá-lo, pela consciência de que qualquer afirmação contém em si a necessidade de colocar balizas, reservas e exceções. 

Quanto ao resto mantemo-nos essencialmente ignorantes, numa espécie de adolescência perpétua, que nos permite ter opiniões descontraídas sobre quase tudo. A maioria de nós sem qualquer consciência disso, com a enorme vantagem da satisfação de se dizer o que se pensa, como se isso fosse em si coisa boa. Pode ser bom quando a opinião é escrita e quem a escreve pensa bem e sabe usar a pena, ou quando é verbal e quem a diz pensa bem e sabe usar a palavra. Em ambos os casos tudo assenta muito na qualidade da retórica. Quando a opinião é de um político é só isso, a opinião de um político. Pode ser aquela ou qualquer outra e terá os defeitos e as qualidades inerentes à forma como é expressa.

A propensão para a opinião, principalmente convicta e com certeza, existe na razão inversa da consciência da nossa desmesurada ignorância. “Só sei que nada sei”, como terá dito Sócrates, após uma vida de sabedoria, pela qual escolheu morrer. 

Estudar alguma coisa abre horizontes e faz-nos ver, enquanto aprendemos, o que não estamos a aprender. É como um túnel em forma de cone, que se alarga à medida que caminhamos numa linha que, na melhor das hipóteses, poderá engrossar ligeiramente.

Não me parece que seja por, eventual e inevitavelmente, poder ter adquirido algum saber que a vontade de opinar se me está a congelar. Tenho de sobra a quantidade de ignorância necessária para poder escrever ou dizer várias coisas sobre várias coisas que basicamente desconheço.

Temo que seja por intuir que há presentemente opinião em excesso e, nesse caso, podemos ao menos poupar o universo à minha. Com resultado semelhante a deixar de usar palhinhas de plástico para evitar que apareçam no nariz duma tartaruga nas redes sociais, enquanto observo a ilha de plástico no Pacífico Norte que tem uma dimensão superior à superfície conjunta da França, Espanha e Alemanha ou as crianças a correr sobre as águas de rios pobres tão cobertos de lixo que lhes permitem a proeza.

domingo, 19 de julho de 2020

A quadratura do círculo pela União Europeia



A União Europeia tem uma habilidade assinalável para fazer a quadratura do círculo.

São muitos anos de experiência, desde 1957, primeiro a seis, depois a oito, a nove, a doze - em 1986, altura em que se concretizou a adesão de Portugal e Espanha à então CEE - continuando a crescer até aos vinte e oito Estados-membros, atualmente 27 com a saída do Reino Unido. Ao aumento da abrangência é inerente o aumento da diversidade e a dificuldade de obter consensos e, mais ainda, regras que os consagrem e operacionalizem nos diversos territórios.

A coesão europeia, a existência de uma mancha geográfica com alguma dimensão e um mercado significativo, foram fulcrais nos anos após a Segunda Grande Guerra. Permitiram dar sequência, na realidade, à paz alcançada no terreno e criar condições para a recuperação económica que a poderia sustentar. Unidos passaram a Guerra Fria, várias crises de várias naturezas e, atualmente, procuram enfrentar a que parece estar e vir a ser a crise das crises, originada pela Pandemia de Covid-19.

Há que realçar que a União Europeia é uma espécie de milagre político e económico que merece admiração, reconhecimento pelos esforços permanentemente em curso e pelos resultados que se vão alcançando. 

Muitas vezes, tal parece ser possível, mais pelo efeito dissuasor do argumento catastrófico, que pela vontade de a manter. Sente-se uma espécie de condenação a conservar o conjunto, porque sozinhos os países ficariam mais pobres, mais vulneráveis, menos influentes. Uma Europa unida continua a ser fundamental, mais ainda quando a geopolítica global está a mudar radicalmente. É importante que no Ocidente, um grupo minimamente coordenado de países possa ter condições de contribuir para o precário equilíbrio mundial. Embora a força que julgam ter, com reminiscências da revolução industrial e de impérios perdidos no século XX, os faça sentir mais fortes e importantes do que, restringidos aos seus territórios não coloniais e à sua relativamente limitada tecnologia, realmente são. O que não retira força à necessidade de, mesmo com o não muito que resta, ser mantida alguma relevância no novo mapa-mundo-universo.

Posto isto, constata-se que após rondas intermináveis de negociações é, por vezes, conseguido um ou outro acordo sobre intenções vagas, enunciadas em estratégias, orientações, livros de várias cores, discursos que os anunciam como algo muito importante, já que se pretende invariavelmente o reforço do mercado comum, através da afirmação dos valores europeus, sempre com o respeito pelos direitos fundamentais e a dignidade da pessoa, bem como o crescimento, simultaneamente sustentável e enorme, em livre concorrência. Tudo com uma enorme solidariedade, compreensão e entreajuda. 

Agora estão a negociar pacotes e medidas para o cataclismo viral. Oxalá consigam. Oxalá todos consigamos.

Essencialmente, é isto. Seja qual for o tema em causa, é mais ou menos isto. 


sexta-feira, 17 de julho de 2020

Rights for AI?


“Does AI - and, more specifically, conscious AI - deserve moral rights? In this thought exploration, evolutionary biologist Richard Dawkins, ethics and tech professor Joanna Bryson, philosopher and cognitive scientist Susan Schneider, physicist Max Tegmark, philosopher Peter Singer, and bioethicist Glenn Cohen all weigh in on the question of AI rights.”

From “Latest News from the Petrie-Flom Center” at Harvard Law School: Glenn Cohen - who began serving as a Deputy Dean at Harvard Law School - participated, with some of the best thinkers on AI, in a reflection on “Does conscious AI deserve rights?” (Big Think video here).

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Teach AI the right values



Picking some highlights: 
Many AI decisions are “based on the biases it has learned from us, from the humans”. “We are also reinforcing our bias in how we interact with AI”. For instance,.personal AI voice assistants, like Siri, Alexa, Cortana, are women and designed to be our obedient servants.
We can teach the right values to AI.
“This is our chance to remake the world into a much more equal place.”.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

O Monstrengo - das Tormentas à Boa Esperança


"O Monstrengo - das Tormentas à Boa Esperança", artigo de opinião versão online disponível aqui.
Revista Frontline - Ler é Poder, ano 13, junho 2020, pp. 60-61.