sábado, 12 de dezembro de 2020
Big Tech and AI research - big troubles?
domingo, 8 de novembro de 2020
Contrato do Utilizador, ou lá o que é
Hoje tive uma surpresa quase-contratual muito instrutiva.
No âmbito do desenvolvimento da minha exigente relação com o telemóvel que comprámos há relativamente pouco tempo resolvi, não me lembro porquê, ler aquilo a que o próprio chama “Contrato do Utilizador”.
Embora este seja um assunto extremamente sério que me deveria levar compenetradamente a enunciar mais uma vez a necessidade de as pessoas serem devidamente protegidas, com um resultado semelhante ao dos que ainda há mais tempo alertam para as catastróficas consequências das alterações climáticas. Isto é, “basicopraticamente”, como tão bem escreveu António Lobo Antunes numa crónica, nenhum.
O que lá encontrei, no entanto, abriu um parênteses nessa epopeia e proporcionou-me dois momentos de grande divertimento, pese embora o utilizador seja claramente eu.
Começo pelo segundo, que consta do ponto 14. que me informa que “Este Contrato é assinado no distrito de Haidian, Pequim.”, embora não entre em pormenores sobre os temas: assinado? Por quem?, o que me dá margem para pensar que um representante da empresa se sentou a assinar um contrato no distrito de Haidian. No mesmo ponto 14. sou descansada com os seguintes dizeres “A interpretação, a eficácia e a resolução de disputas são aplicáveis às leis da República Popular da China. Na ausência de disposições legais relevantes, é feita referência às práticas comerciais e/ou práticas comerciais internacionais.”. Ainda bem que li, porque fiquei devidamente esclarecida sobre uma série de coisas, embora não saiba bem quais.
O segundo assunto, que já não me diz diretamente respeito, consta do ponto 12. e tem a ver com a “Utilização por menores de idade”. Aí, depois da conversa habitual sobre a vigilância parental vem um sub-ponto com a seguinte maravilha: “Um menor de idade deve respeitar a Convenção Nacional Chinesa de Comportamento na Internet para Adolescentes: (1) utilizar a Internet para aprender e evitar informações destrutivas; (2) ser honesto e amigável na comunicação, e não para insultar ou ofender os outros; (3) aumentar a consciência do autocuidado e evitar o encontro com desconhecidos online; (4) manter a segurança da rede e não perturbar a ordem da rede; e (5) manter a saúde física e mental e não desenvolver o vício no ciberespaço.”.
O que tenho a dizer em relação a isto é que acho muitíssimo bem e que fico muito mais descansada por saber que os adolescentes, menores de 18 anos, que têm um telefone da marca do meu e, atrever-me-ia a admitir que de muitas outras marcas, são obrigados a respeitar aquelas regras ou outras igualmente boas. E mais, utilizando o telefone sempre sobre a atenta vigilância dos seus parentes, como naturalmente acontece, principalmente na faixa etária 12-18, a obrigação deve estender-se a esses mesmos parentes e aos outros, bem como aos amigos, para ninguém ser desencaminhado.
Como tudo está bem quando acaba bem, saí rapidamente daquele sítio perigoso online para evitar informações destrutivas e, não tendo procedido à destruição do aparelho como o mais elementar bom senso determinava, continuei a usar, como toda a gente, o relativamente pouco smart phone.
domingo, 11 de outubro de 2020
Smartphone – ser (humano) usado pelo telefone
Tenho um telemóvel novo, o que é extremamente desagradável. Esta inevitabilidade ocorreu pelas razões normais da obsolescência programada que, no meu caso, é vencida em alguns anos já que me é indiferente perder funções. No limite gostaria mesmo de perder o próprio telefone e manter-me num nível de desconexão e ausência de estímulo não escolhido nem desejado, que são a base da liberdade e da criatividade. Para continuar a manter-me refém uso os argumentos do costume, todos válidos. A vida, atualmente, pressupõe conexão e, não a tendo, implica exclusão. O que, contas feitas, significa escolher entre ser ermita em autossuficiência num campo, sem internet, ou viver e trabalhar em sítios com internet tornando-se, neste caso, a conexão inevitável.
Há algumas situações intermédias em que pessoas cheias de valor tentam fugir ao mainstream e usar coisas alternativas, menos invasivas e dominadoras, normalmente mais caras e a exigir um elevado nível de conhecimento informático. É, por exemplo, o interessante caso de Julia Angwin que em 2014 - imagine-se! – escreveu no New York Times um artigo com o título “Has Privacy Become a Luxury Good?”, disponível aqui. Logo no início afirmava “LAST year, I spent more than $2,200 and countless hours trying to protect my privacy.”. A experiência decorreu, portanto, em 2013, completamente na pré-história da atualidade, já que foi mais ou menos por essa altura que se deu a explosão do machine learning, logo seguida da explosão do deep learning (aprendizagem mecânica usando redes neuronais artificiais, do inglês ANN para Artificial Neural Nets). O que significa que se situação semelhante ocorresse agora, tudo indica que o preço e o tempo aumentariam e os resultados piorariam.
Realizar esta experiência, por falta de dinheiro e/ou conhecimentos, não está ao alcance dos comuns mortais. Esta expressão vai progressivamente caindo em desuso, pelo menos para os muito ricos, na proporção da sua conquista da imortalidade, tanto física – ainda a alguma distância – como digital, esta já uma realidade corrente em várias formas, de que se destaca o exemplo mediático de Deepak Chopra, famoso guru que ajuda a humanidade, agora também através da uma inteligência artificial de si próprio, já que aceitou ser cobaia na experiência da AI Foundation (mais detalhe aqui).
Sucede, então, que o meu novo telefone é incomparavelmente mais irritante que o anterior, por variadíssimas razões, de que se destacam duas.
A primeira é-lhe alheia e tem a ver com tudo o que se perde quando se muda de dispositivo, principalmente porque em vez de o que temos estar guardado num sítio qualquer, está guardado noutro sítio qualquer. Claro que sobrolhos se franzem neste momento, pensando “Santa ignorância, porque é que não tem tudo sincronizado e/ou guardado numa nuvem desta vida e da outra, sempre disponível?!”. Têm toda a razão já que se assim o fizesse, à partida, não teria problema. E convenhamos que tanto o sr. Google, como o sr. Alibaba e outros senhores do ocidente, do oriente e do meio, saberiam de qualquer modo o mesmo, isto é, tudo e também mais alguma coisa. Resisto, no entanto, para meu óbvio mal.
A segunda é o facto de a Inteligência Artificial que tem, ser muito esperta para umas coisas que lhe interessam e extremamente estúpida para outras que me podem interessar a mim. Por exemplo, é exímia a detetar movimento e ao menor toque no telemóvel parece Natal, com luz a acender-se e, neste caso, também com notificações e emails a chegarem freneticamente nesse instante, o que só pode ser uma coincidência. Em contrapartida, é de uma exasperante burrice na escrita, insistindo em corrigir e acrescentar o que estava certo e completo e, com a sua intervenção, fica errado e disparatado. Sei que isto lhe vai passar à medida que eu, com uma paciência que não tenho e estando condenada a ensinar-lhe, for explicando como se faz.
É nesta atividade pedagógica que a humanidade tem estado. Esforçada, exasperada por vezes, obedecendo a ordens “Agora diz: faz uma chamada para a Maria”, repetindo, voltando a repetir mais devagarinho, apagando e reescrevendo. Principalmente gravando tudo, vídeos, imagens, só voz, reuniões, paisagens, viagens, videochamadas pessoais e profissionais, dados biométricos, os do sono, os do fitness, as impressões digitais e a iris que já desbloqueiam dispositivos perfeitamente normais e correntes, e etc, até ao infinito e mais além.
Há algum tempo que se me vai avolumando a convicção de que vai deixando de ser a pessoa a usar o telemóvel, passando a ser o telemóvel a usar a pessoa. O smartphone vai passando de uma extensão do humano que o detém, para um situação em que se integra com a pessoa numa simbiose crescentemente intensa, caminhando-se paulatinamente para a situação em que o dispositivo, carregado de internet e inteligência artificial, usa a pessoa para que lhe mostre tudo o que precisa de saber e ver. Literalmente ver. CV, antes indubitavelmente Curriculum Vitae do latim, é hoje pacificamente Computer Vision do inglês.
Máquinas aumentadas com pessoas, e não o contrário, parece-me ser onde estamos e para onde vamos, com uma convicção de inevitabilidade. “Vemos, ouvimos e lemos” e devemos ignorar.
Tem de ser e eles é que sabem.
terça-feira, 28 de julho de 2020
A sabedoria e o cone da ignorância
domingo, 19 de julho de 2020
A quadratura do círculo pela União Europeia
Agora estão a negociar pacotes e medidas para o cataclismo viral. Oxalá consigam. Oxalá todos consigamos.






